Decoração
22 out 2026

Boobam e Casa Riachuelo em cena

O que faz uma mesa parecer brasileira?

Entre memórias afetivas, referências de outras décadas e imagens que circulam pelo mundo, a coleção Brasil à Mesa me fez pensar sobre como reconhecemos a identidade de um objeto.

A parceria entre Boobam e Casa Riachuelo chegou às minhas telas com uma coleção de objetos para a casa que mistura cores, formas e texturas. Gostei da composição, mas o nome também me fez parar para pensar: onde está o Brasil nessa mesa?

A pergunta não é uma crítica à coleção, mas uma curiosidade genuína sobre as referências que reconhecemos e sobre como elas se formam.

Entre a memória e o repertório visual

Quando olho para as peças, os vidros coloridos, com aquele ar de fumê, me lembram as casas de outras décadas, com objetos que carregam uma familiaridade difícil de explicar, como se já tivessem feito parte de alguma sala de jantar conhecida. A mistura de pratos coloridos também me leva para mesas em que nada precisa combinar perfeitamente para funcionar junto, em uma composição espontânea na qual cada peça parece ter sua própria história.

São referências afetivas que reconheço com facilidade, mas será que são necessariamente brasileiras?

A coleção Brasil à Mesa reúne pratos, copos, castiçais e outros objetos que misturam cores, formas e texturas. O conjunto me agrada, mas parte das referências que identifico também poderia estar em imagens de interiores dos anos 1970 ou em composições que hoje circulam pelo Pinterest. E é justamente aí que a conversa fica interessante.

Afinal, o que faz um objeto ser brasileiro?

Existe a origem de um objeto, a intenção de quem o desenha, os materiais, as técnicas de produção e as referências culturais que inspiram uma coleção, mas existe também o olhar de quem a encontra e as memórias que cada pessoa associa àquilo que vê.

Um mesmo copo pode remeter à casa dos avós de alguém e, para outra pessoa, parecer uma novidade descoberta em uma loja de design contemporâneo. As referências circulam, se misturam e reaparecem em outros contextos, fazendo com que aquilo que já foi familiar volte a ser tendência e que objetos de outras épocas ganhem novas leituras.

Será que está tudo tão cíclico e misturado que a origem já não é tão evidente? Ou reconhecer essas referências depende de conhecer as histórias que existem por trás dos objetos?

Não tenho uma resposta fechada, e é justamente isso que me interessa nessa discussão. Quero entender como construímos nossas associações visuais e o que faz uma composição despertar a sensação de pertencimento, memória e identidade.

Quero saber de você: o que faz lembrar elementos afetivos e brasileiros nessa coleção? É a mistura de cores, os formatos, os materiais ou alguma memória que essas peças despertam?

Quando o assunto é design, olhar também é uma forma de descobrir de onde vêm as nossas referências e por que algumas delas parecem tão nossas.

Inspirações
21 out 2026

Coisas que ficaram mais interessantes depois dos 40

Fazer 40 anos não muda tudo de uma vez. Não existe uma manhã em que a gente acorda com respostas definitivas, uma rotina perfeitamente organizada ou uma versão resolvida de si mesma. O que muda, muitas vezes, é o olhar.

Algumas coisas ficam mais interessantes porque a gente passa a prestar atenção em outras. Vestir-se, por exemplo, pode deixar de ser uma tentativa de acertar uma tendência e se tornar uma maneira de reconhecer o próprio gosto. A pergunta deixa de ser apenas “está na moda?” e passa a incluir “eu me sinto bem assim?”.

A casa também muda de lugar. Mais do que seguir uma imagem pronta, cresce a vontade de morar entre objetos que contam histórias, materiais que dão vontade de tocar e escolhas que resistem ao impulso de trocar tudo a cada novidade. O que tem significado começa a valer tanto quanto o que é bonito.

Com o tempo, a curiosidade não precisa diminuir. Pode até ficar mais específica. A gente descobre autores, artistas, lugares e assuntos que gostaria de conhecer melhor. Aprende a guardar referências, a mudar de ideia e a admitir que não precisa gostar de tudo, nem acompanhar todas as conversas ao mesmo tempo.

Há também uma relação diferente com o tempo. Nem sempre mais tranquila, nem sempre mais sábia. Mas, em muitos momentos, mais consciente do custo de dizer sim para tudo. Escolher onde colocar energia passa a ser tão importante quanto escolher o que fazer com ela.

Isso não quer dizer que inseguranças desapareçam ou que a vida fique mais simples. Os 40 não são uma chegada triunfal a uma versão final. São uma idade como qualquer outra, com contradições, recomeços, descobertas e assuntos ainda em aberto.

O que fica interessante é perceber que não precisamos ser as mesmas pessoas de dez ou vinte anos atrás. Podemos rever preferências, experimentar de novo e mudar de direção. A maturidade não precisa vir acompanhada de uma personagem mais séria, mais discreta ou mais previsível.

Talvez a melhor parte seja essa: ter repertório suficiente para reconhecer o que combina com a gente e liberdade para continuar se surpreendendo.

Decoração
21 out 2026

 Dopamine Decor: quando a decoração faz sentir

Durante muito tempo, boa parte das referências de interiores valorizou ambientes neutros, organizados e visualmente silenciosos. O Dopamine Decor aponta para outro caminho: uma casa que também pode ser fonte de estímulo, prazer e expressão pessoal.

O termo se popularizou para descrever escolhas de decoração guiadas pela sensação que provocam. Cores intensas, estampas, objetos divertidos, lembranças de viagem, peças herdadas e coleções entram em cena não apenas porque combinam entre si, mas porque significam alguma coisa para quem vive ali. A ideia de dopamina aparece no nome como uma associação à recompensa e ao prazer, mas não deve ser entendida como uma fórmula científica para decorar ou como garantia de um efeito emocional específico. O ponto central é mais simples: os ambientes participam da nossa experiência cotidiana, e aquilo que vemos ao redor pode despertar lembranças, curiosidade, conforto ou alegria.

Isso não significa que todo espaço precise ser colorido ou maximalista. Para algumas pessoas, o bem-estar está em uma paleta discreta; para outras, está em paredes vibrantes, objetos inesperados e combinações que quebram regras. O que importa é que as escolhas façam sentido para quem usa o espaço e não apenas para a fotografia.

Uma maneira de experimentar é começar pequeno: reunir livros e objetos queridos em uma prateleira, escolher uma obra que provoque alguma reação, misturar estampas ou trazer cor para uma peça que possa ser trocada com facilidade. Em vez de seguir uma lista de compras, vale olhar primeiro para o que já existe e perceber o que merece ganhar destaque.

Também existe espaço para contraste e respiro. Uma peça colorida pode ganhar força ao lado de materiais naturais; uma coleção pode ficar mais interessante quando organizada; uma parede intensa pode conviver com móveis simples. Personalidade não é excesso: é intenção.

No fim, o Dopamine Decor lembra que a casa não precisa responder apenas a uma estética idealizada. Ela pode revelar gostos, histórias e pequenas obsessões. Um ambiente ganha identidade quando deixa de parecer feito para qualquer pessoa e começa a contar algo sobre quem mora nele.

Decoração
19 out 2026

Quando o ladrilho deixa de ser revestimento e vira arte

Quando o ladrilho deixa de ser revestimento e vira arte

Uma superfície pode fazer muito mais do que revestir um piso ou uma parede. Pode criar ritmo, contar histórias e transformar a maneira como percebemos um ambiente.

Existem materiais que passam despercebidos. Outros mudam completamente a nossa maneira de olhar para um espaço. O ladrilho está nessa segunda categoria.

Gosto de observar como um desenho que se repete, uma combinação inesperada de cores ou uma composição geométrica podem transformar uma superfície aparentemente comum em algo que prende o olhar. O que poderia ser apenas um acabamento passa a ter protagonismo, quase como uma obra de arte incorporada à arquitetura.

E essa relação entre arte e revestimento não é nova.

A beleza que se repete

O ladrilho hidráulico é um bom exemplo de como técnica e expressão artística podem caminhar juntas. Produzido artesanalmente com cimento, pigmentos e prensagem hidráulica, ele permite criar desenhos geométricos, florais e composições que ganham forma a partir da repetição das peças.

Cada unidade faz parte de um conjunto. Quando colocadas lado a lado, as peças formam desenhos maiores, criando superfícies que lembram tapetes, mosaicos e até composições gráficas.

Essa lógica faz parte da história do material, cuja produção e utilização ganharam destaque na arquitetura entre os séculos XVIII e XIX. No Brasil, os ladrilhos passaram a integrar pisos de residências, comércios e edifícios públicos, tornando-se também parte da memória visual de muitas cidades. SciELO

Há algo interessante nessa ideia: um elemento produzido para cumprir uma função prática também pode carregar referências culturais, escolhas estéticas e marcas de seu tempo.

Quando o desenho assume o protagonismo

Na arquitetura e no design de interiores, o revestimento costuma ser escolhido para acompanhar o projeto. Mas o ladrilho pode inverter essa lógica.

Em vez de apenas complementar o ambiente, ele passa a orientar as outras decisões.

Uma paginação marcante pode definir a identidade de uma cozinha. Um desenho geométrico pode conduzir o olhar por um corredor. Uma composição colorida pode dar personalidade a um espaço de linguagem mais neutra.

Nesses casos, não é necessário preencher o ambiente com muitos elementos decorativos. O próprio revestimento já oferece textura, ritmo e informação visual.

O segredo está na composição: na relação entre cores, formas, escala e tudo aquilo que está ao redor.

Tradição com outros olhos

O interesse pelo ladrilho também tem a ver com sua permanência.

Em um mercado que apresenta constantemente novos materiais e acabamentos, olhar para uma técnica tradicional é reconhecer que nem toda novidade precisa nascer de um material inédito. Às vezes, ela aparece na maneira como reinterpretamos algo que já existe.

Pesquisas sobre a história do ladrilho hidráulico destacam justamente essa capacidade de atravessar diferentes períodos e adquirir novos significados, mantendo sua importância estética e cultural. Revistas USP

Hoje, o material pode aparecer em projetos contemporâneos sem reproduzir literalmente os ambientes do passado. O desenho, a escala, a combinação de cores e a área de aplicação mudam sua leitura.

O resultado pode ser clássico, gráfico, delicado ou ousado. A técnica é apenas parte da história; o contexto em que ela aparece também importa.

Um olhar além da superfície

Talvez o que mais me interesse nos revestimentos seja essa capacidade de mudar a percepção de um espaço sem precisar ocupar mais espaço.

Um desenho no chão pode transformar a experiência de atravessar um ambiente. Uma parede revestida pode funcionar como ponto focal. Uma sequência de formas pode criar movimento onde antes havia apenas uma superfície lisa.

Quando isso acontece, o material deixa de ser um detalhe secundário e passa a participar ativamente da linguagem do projeto.

O ladrilho não precisa imitar uma obra de arte para ter valor artístico. Ele encontra sua força no desenho, na matéria, na composição e na maneira como transforma o espaço.

E é justamente por isso que vale olhar para os revestimentos com mais atenção. Algumas das escolhas mais interessantes da arquitetura estão nas superfícies que, à primeira vista, parecem estar ali apenas para cumprir uma função.